segunda-feira, 7 de novembro de 2011

"A victoria do jogo brasileiro: capoeira versus jiu-jitsu"

Estávamos em 1909. A Marinha de Guerra do Brasil tinha acabado de contratar, diretamente do Japão,  um grande campeão e professor de jiu-jitsu, o Senhor Sada Miako. Foi o que bastou para despertar, em atuante grupo de acadêmicos de medicina, a idéia de um tira-teima com a capoeiragem brasileira. Apresentaram, como oponente ao japonês, o campista (Município de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro), o Senhor Francisco da Silva Cyríaco, mais conhecido como Cyríaco Macaco Velho. Francisco da Silva,  mestre de vários desses universitários,  era considerado um dos maiores, senão o maior capoeira brasileiro da época.
Depois de natural relutância, autoridades (inclusive autoridades militares) e o Sr. Pachoal Segreto, proprietário-administrador do  Pavilhão Internacional, resolveram aceitar o desafio.
Em muito pouco tempo, Brasil e Japão tomaram conhecimento do resultado da luta.   Cyriaco, com surpreendente rabo-de-arraia  vencera o campeão que, perplexo, não aceitou a revanche que, ainda no tablado, lhe foi oferecida pelo capoeira.
Dentre as diversas reflexões que o episódio e os registros fotográficos sugerem, neste momento, destaco quatro:

1.      Se houve  luta pública de capoeira, aprovada e presenciada por autoridades civis e militares, como continuar afirmando que a Capoeira só foi liberada (?) pelo Presidente Getúlio Vargas, décadas mais tarde,  através de decreto específico (e fantasma), logo após o presidente assistir roda exemplar?
2.      A adoção de um grande capoeirista por grupo de acadêmicos de medicina, coincidência ou não, voltou a acorrer algumas décadas mais tarde, em Salvador. Talvez um grupo menor de acadêmicos, mas extremamente dedicado e competente, sendo impossível e injusto não destacar a importância de dois deles: 1. O cearense José Cisnando Lima, estudioso também de  outras lutas e conhecedor, como Bimba, do precioso livro  de Annibal ZUMA Burlamaqui); e 2. Ângelo Decânio Filho, também praticante de judô, que hoje em dia, forte e atuante, no alto de seus 83 anos, é considerado a mais importante fonte de informação e intérprete da chamada Luta Regional Baiana.
3.      Pelo tipo de ginga e pela  distinção dos trajes de Cyriaco realmente faz sentido considerar, como fez o Jornal do Capoeira (com muito humor), se esta não seria a linhagem do sempre elegante Mestre Leopoldina.
4.      A deplorável insensibilidade crônica da grande maioria dos mestres, contramestres e pesquisadores do Rio de Janeiro para a importância da Capoeira do Rio Antigo em geral, e da capoeira de Cyriaco em particular. Pena que tenha faltado um Decânio no grupo de alunos de Cyriaco, pois, neste caso, ele não estaria tão esquecido pelos cariocas, fluminenses e brasileiros em geral (com as raras e honrosas exceções de sempre). Em que pese, é claro, o histórico movimento que fizeram os alunos de Cyriaco que culminou no confronto em tela.

Ironicamente ouço falar mais deste passado heróico do Rio de Janeiro quando viajo. Foi o que aconteceu em visita recente a Aracaju, Sergipe (para detalhes recomendo navegada no Jornal do Capoeira, editado pelo Miltinho Astronauta), onde fui agraciado com valioso presente: um pacote de revistas antigas, publicadas no Rio, então capital federal e distribuídas por todo Brasil. Por elas, entre outras preciosidades, verifico que o famoso conjunto de fotos publicado na Revista Careta (sobre Cyriaco), foi também publicado, em várias outras. Com mais ou menos fotos.  Como está havendo crescente interesse para esta parte ainda encoberta da História da Capoeira, aproveito essa crônica para publicar uma variante do famoso conjunto de fotos feito por ocasião da histórica vitória do  Capoeira sobre o Campeão de Jiu-Jitsu:A Marinha de Guerra do Brasil tinha acabado de contratar, diretamente do Japão, um grande campeão e professor de jiu-jitsu, o Senhor Sada Miako. Foi o que bastou para despertar, em atuante grupo de acadêmicos de medicina, a idéia de um tira-teima com a capoeiragem brasileira. Apresentaram, como oponente ao japonês, o campista (município de Campos dos Goytacazes, no Rio), o Senhor Francisco da Silva Cyríaco, mais conhecido como Cyríaco Macaco Velho. Francisco da Silva, mestre de vários desses universitários, era considerado um dos maiores, senão o maior capoeira brasileiro da época.Depois de natural relutância, autoridades (inclusive autoridades militares) e o Sr. Pachoal Segreto, proprietário-administrador do  Pavilhão Internacional, resolveram aceitar o desafio.

Em muito pouco tempo, Brasil e Japão tomaram conhecimento do resultado da luta. Cyriaco, com surpreendente rabo-de-arraia, venceu o campeão que, perplexo, não aceitou a revanche que, ainda no tablado, lhe foi oferecida pelo capoeira.Dentre as diversas reflexões que o episódio e os registros fotográficos sugerem, neste momento, destaco quatro: 

 Se houve luta pública de capoeira, aprovada e presenciada por autoridades civis e militares, como continuar afirmando que a Capoeira só foi liberada (?) pelo presidente Getúlio Vargas décadas mais tarde, através de decreto específico (e fantasma), logo após o presidente assistir roda exemplar?A adoção de um grande capoeirista por grupo de acadêmicos de medicina, coincidência ou não, voltou a acorrer algumas décadas mais tarde, em Salvador. 

Talvez um grupo menor de acadêmicos, mas extremamente dedicado e competente, sendo impossível e injusto não destacar a importância de dois deles: o cearense José Cisnando Lima, estudioso também de outras lutas e conhecedor, como Bimba, do precioso livro de Annibal ZUMA Burlamaqui); e Ângelo Decânio Filho, também praticante de judô, que hoje em dia, forte e atuante, no alto de seus 83 anos, é considerado a mais importante fonte de informação e intérprete da chamada Luta Regional Baiana.

Pelo tipo de ginga e pela distinção dos trajes de Cyriaco, realmente faz sentido considerar, como fez o Jornal do Capoeira (com muito humor), se esta não seria a linhagem do sempre elegante Mestre Leopoldina.A deplorável insensibilidade crônica da grande maioria dos mestres, contramestres e pesquisadores do Rio de Janeiro para a importância da Capoeira do Rio Antigo em geral, e da capoeira de Cyriaco em particular. Pena que tenha faltado um Decânio no grupo de alunos de Cyriaco, pois, neste caso, ele não estaria tão esquecido pelos cariocas, fluminenses e brasileiros em geral (com as raras e honrosas exceções de sempre). Em que pese, é claro, o histórico movimento que fizeram os alunos de Cyriaco que culminou no confronto em tela.Ironicamente, ouço falar mais deste passado heróico do Rio de Janeiro quando viajo. Foi o que aconteceu em visita recente a Aracaju, Sergipe (para detalhes recomendo navegada no Jornal do Capoeira, editado pelo Miltinho Astronauta), onde fui agraciado com valioso presente: um pacote de revistas antigas, publicadas no Rio, então capital federal e distribuídas por todo Brasil. Por elas, entre outras preciosidades, verifico que o famoso conjunto de fotos publicado na Revista Careta (sobre Cyriaco), foi também publicado em várias outras. Com mais ou menos fotos. Como está havendo crescente interesse para esta parte ainda encoberta da História da Capoeira, aproveito essa crônica para publicar uma variante do famoso conjunto de fotos feito por ocasião da histórica vitória do Capoeira sobre o Campeão de Jiu-Jitsu:

Manchete Final da Ilustração:
"Cyriaco, como todos sabem, venceu em poucos minutos, no tablado do Concerto Avenida, o até então invencível Miaco, professor japonez da luta jiu-jitsu. Cyriaco, natural de bom gênio, mas destro e conhecedor de capoeiragem como poucos quis repetir a dose, no que não consentiu o japonez vencido. Isto vem provar mais uma vez as vantagens da capoeiragem como exercício, que há longo tempo preconizamos pelas columnas do Jornal do Brasil, vantagens que subiriam mais se fosse methodizado o exercício, expurgados os golpes misteriosos e mortaes". (Revista da Semana, 30 de maio de 1909 - Domingo - Anno IX - 472)

fonte e creditos-  

http://www.capoeira.jex.com.br/cronicas/a+victoria+do+jogo+brasileiro+capoeira+versus+jiu-jitsu+-+parte+final

domingo, 6 de novembro de 2011

Batizado e troca de cordéis do grupo Meninos do Eucalipto

É com muito prazer que venho aqui informar sobre um grande evento que aconteçeu na manhã deste domingo (06/11), que contou com a presença de vários grupos e associações de nossa cidade e regiões visinhas.
O Grupo de Capoeira Meninos do Eucalipto nos fez relembrar os antigos eventos, onde os mestres e professores levavam seus alunos para prestigiar e "vadiar" em comunhão com os amigos com a certeza de que seriam respeitados e bem recebidos, que esse evento sirva de exemplo para todos que estiveram presentes, e aos ausentes só tenho a lamentar pois perderam um grande evento que ficará marcado na minha lembrança e na da capoeira de Feira de Santana para sempre!
Axé!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A capoeira como sabemos, não pode ser interpretada de forma simplista e reducionista. Dentre as suas várias possibilidades, ela pode ser caracterizada como jogo, luta, brincadeira, dança, arte, cultura, filosofia, educação. Alguns a consideram também como esporte. A riqueza de referências contidas na capoeira, permite essa diversidade de interpretações.
Gostaria de tecer aqui, algumas considerações sobre a caracterização da capoeira como esporte. Antes de mais nada, é preciso também esclarecer que o fenômeno “esporte” também possui vários sentidos e possibilidades de interpretação. O esporte tanto pode ser visto como atividade voltada para o lazer, visando a busca pela saúde e a educação das pessoas, o desenvolvimento da cooperação e da sociabilidade daqueles que o praticam, como também pode ser visto como uma prática altamente competitiva, excludente, discriminatória (pois só os mais fortes e habilidosos tem vez) em busca da vitória “a qualquer custo”, ou seja, mais um produto dessa nossa cruel sociedade capitalista.
Pois é, aqueles que defendem a capoeira como esporte, têm que deixar claro a que tipo de concepção de esporte estão se referindo. Se for a uma concepção de esporte que busque a integração, o prazer, a inclusão, a socialização das pessoas, aí então posso concordar com essa visão. Mas do contrário, sou muito crítico àquela visão que associa a capoeira ao esporte competitivo, onde campeonatos são organizados para se eleger o melhor, o mais forte, o mais habilidoso, o mais acrobático, onde juízes e regras vão transformando a alegria e espontaneidade de um jogo de capoeira, num clima tenso e pesado onde é travada uma batalha feroz e muitas vezes violenta.
Mestre Bimba e Alunos na Década de 30 um dos percursores da capoeira dentro do contexto da academia A capoeira não pode ser reduzida a isso !  Gosto de ver um jogo de capoeira onde as pessoas sorriem e se divertem jogando. Onde há espaço para uma brincadeira marota, uma dissimulação, uma mandinga, uma “gaiatice” como se diz aqui na Bahia. Me pergunto como isso seria julgado por um juiz num desses campeonatos ? Quantos pontos valeria uma mandinga ou uma gaiatice de um capoeira malandro ? Por que um jogo de capoeira tem que ter um perdedor e um ganhador ?  Quem vai estabelecer os critérios do que é bom e o que é ruim num jogo de capoeira, para se definir a pontuação ?  É possível alguém definir isso em se tratando de uma prática tão complexa, rica e diversa como a capoeira ???
Nessa direção, muito me preocupa um certo movimento de querer transformar a capoeira em esporte olímpico. Aí seria, na minha opinião, a sentença de morte para a capoeira enquanto livre expressão do povo brasileiro. A capoeira tem beleza e valor, justamente por possuir essa diversidade, essa espontaneidade, essa alegria. No momento em que enclausurarmos a capoeira dentro de regras internacionais rígidas e competitivas – pois é isso que se exige de um esporte olímpico – a capoeira estará sendo destituída de seus elementos mais ricos, mais belos, estará perdendo a sua alma !!! Se o saudoso mestre Pastinha por aqui estivesse, certamente iria bradar contra isso.
Certo dia desses, fui convidado a um evento de capoeira onde, entre outras atividades, houve um campeonato. Fiquei observando de longe as reações, o clima de tensão, os semblantes fechados, as adversidades e as animosidades que aquilo tudo produzia nas pessoas que participavam do tal campeonato. Mas tive certeza mesmo dos malefícios que aquilo trazia, quando presenciei o choro inconsolável de uma menina de 10 anos, que perdera a final para uma outra menina um pouco mais velha. O jogo bonito que ela apresentou não lhe serviu de nada. A garota mais velha, para os juízes, foi mais “agressiva”. A medalha foi para ela !!!
É nisso que queremos que a nossa capoeira se transforme ????

Fonte: portalcapoeira.com

Fabricando uma estética da capoeira : uma visão do documentário Fly Away Beetle

Verificamos que tem havido, nos últimos anos, uma produção crescente de documentários e filmes sobre a capoeira. Contudo, essa produção desde sempre existiu, embora circunscrita ao âmbito nacional e quase sempre envolta a outras temáticas da cultura afro-brasileira. Não era de espantar que esse crescimento exponencial se verificasse se tomarmos em conta o processo acelerado de globalização da capoeira e as apropriações diversas que a indústria cultural faz da cultura popular no mundo.
Only the Strong Um dos melhores exemplos de difusão da capoeira através dos meios audiovisuais foi o filme Only the Strong, lançado em 1993 e que no Brasil ganhou o nome de Esporte Sangrento. Visto em todo mundo, por milhares de jovens, o filme inspirou uma geração de praticantes que, não tendo acesso ao ensino formal da capoeira, deram início à sua prática através do filme. Mas não é isso que nos interessa de todo no filmes sobre a capoeira, se não a sua capacidade de gerar uma estética performativa que prende-se à invenção de um certo exotismo, de uma etnicidade, de uma tradição e uma certa tropicalidade que se reinventa ao longo dos tempos. O que seria do samba sem a figura eminente de Carmén Miranda, que ajudou a projetar o estilo musical por além-fronteiras e subscrever-lhe a certidão de nascimento como símbolo nacional brasileiro. Na década de trinta a cantora realizou, entre outros, dois filmes importantes, A voz do Carnaval e Banana da Terra, onde canta a celebre canção “O que é que a baiana tem?”, de Dorival Caymi. O mesmo ocorreu com o tango, que reforçou a sua argentinidade com os filmes realizados por Carlos Gardel na primeira metade do século XX. Nos exemplos citados do samba e do tango, observamos que, já em tempos idos, as indústrias cinematográfica e fonográfica andavam de braços dados na fabricação de símbolos e imaginários de uma certa estética da cultura popular que se, por um lado, levava audiências ao cinema, por outro, vendia discos. No que toca a capoeira, as trocas simbólicas tem favorecido, por conveniência, ambas as partes. Em verdade, podemos dizer que, de uma maneira geral, as artes visuais sempre se valeram da capoeira como elemento de exploração artística e estética ao mesmo tempo que fabricavam uma esteticidade para a capoeira. Veja-se os exemplos das pinturas de Carybé e as fotografias de Pierre Verger, tão famosas, hoje, em todo mundo.
Poderíamos aqui trazer um elenco muito vasto de filmes nacionais e internacionais que trataram a capoeira: Barravento, O pagador de Promessas, Dança de Guerra, Cordão de Ouro,, Pastinha: uma vida pela capoeira, capoeira Iluminada, Mandinga in Manhattan, Besouro, entre outros tantos que escapam a essa lista. Fly Away Beetle surge na sequência desses filmes e, de uma certa forma, como uma extensão de todos, sobretudo os de caráter documental, embora na sua linguagem estética se afaste deles
O documentário traz o depoimento de alguns mestres respeitados como guardiões, ainda vivos, da capoeira, a exemplo de Boca Rica, Olavo dos Santos e Cobra Mansa. Para além disso, traça o percurso de vida de Roque Batista, jovem que tendo saído dos meios mais desfavorecidos da capital baiana, foi resgatado da marginalidade para tornar-se um professor de capoeira. O enredo não é de todo desconhecido para nós capoeiristas: a capoeira como prática de resgate dos mais desfavorecidos e a capital baiana, abrigo dos principais interlocutores da tradição da capoeira, em verdade a Meca da capoeira para alguns e epicentro da cultura afro-brasileira.
Para além dos renomados mestres e de Roque Batista, destacamos que o filme tem muitos outros personagens secundários que, apesar da sua pouca visibilidade, desempenham um papel importante no discurso que o filme apresenta em suas entre-linhas. Falo dos capoeiristas que, em visualização mais acelerada, deferem golpes num bailado típico da capoeira contemporânea. A exibição dos corpos e dos cenários urbanos da capital baiana ressaltam uma estética da capoeira morena e tropical. Chama a atenção que grandes partes das tomadas são feitas ao ar livre, nas praças, Igrejas e locais públicos onde se joga bola, onde a baiana vende seus produtos e coexiste a capoeira. São essas mesmas cenas que, em  Fly Away Beetle, contrastam com os depoimentos dos mestres mais antigos, Boca Rica e Olavo dos Santos, os quais, por meio de suas próprias histórias, nos transportam para uma época de uma capoeira marginal, violenta, perseguida, desvalorizada, repudiada pela sociedade. É através dessa relação que Fly Away Beetle nos apresenta um paradoxo e ,certamente, o que o filme trás de mais importante. A capoeira, prática desenvolvida no Brasil por escravos africanos e seus descendentes diretos – assim como o samba e outras manifestações de matrizes africanas, até pouco tempo relegadas ao status de “coisa de preto” – completou a sua transição entre polos opostos, deixando de ser vista pelas elites como “um dos fatores da nossa inferioridade como povo”, alcançando os meios artísticos e constituindo, hoje, um dos símbolos da nossa identidade nacional. No entanto, a história de Roque Batista aparece no filme para nos lembrar que, apesar da capoeira ter chegado em Hollywood, a população afro-brasileira continua confinada à marginalidade, à pobreza e à miséria, carentes de projetos sóciais ou de uma tábua-de-salvação como o samba, o futebol ou a capoeira, que lhes resgate da exclusão social.
No mais, vale a pena estabelecer uma relação entre Fly Away Beetle e o filme Besouro, lançado no ano passado. Besouro, cuja história se passa na velha Bahia, trás a figura de mestre Alípio, que tal como os Mestres Olavo, Boca Rica e Cobra Mansa, representam o mestre ancião, guardião das tradições, mestre de Besouro. Recordamos também que Besouro passa grande parte do tempo na mata selvagem, onde entranha-se com os seres da floresta e a sua tropicalidade espiritual. O Besouro de Fly Away Beetle é Roque e a sua mata é a selva urbana de Salvador, recheada de perigos que conduzem o homem a desordem social, ao caos e a entropia. O seu elemento de metamorfose de homem em inseto voador é a capoeira, mágica, negra, mestiça, tropical, ancestral, ritualizada num mundo cada vez mais secularizado.
Apesar da obviedade e da natural desconstrução que se impõe, não posso deixar de enfatizar que em grande parte a capoeira tem de fato estado a serviço da cidadania e do resgate da cultura afro-brasileira. Roque Batista é um entre tantos brasileiros a quem a capoeira deu existência, seja por que tornou-se um dos divulgadores da arte, seja por que o filme inventou-lhe o personagem na vida e em particular no mundo da capoeira.
A conversão do popular em objeto estético é uma magia que o cinema bem sabe fazer, adoçada pelas imagens da não menos mítica capoeira, em tempos pós-modernos. Não espanta que a estreia do filme na Europa fez-se em duas grandes metrópoles pós-coloniais como Lisboa (Universidade de Lisboa) e nos auditórios de Londres, onde as platéias globalizadas consomem o que na periferia mundial se produz. Roque and roll, afinal, são produtos globais.
Ricardo Nascimento
Geógrafo
Mestre em Sociologia da cultura
Doutorando em Antropologia
Professor de capoeira
Fonte:  portalcapoeira.com

Retomando os trabalhos

Bom pessoal após tres anos de inatividade (principalmente por falta de tempo) estamos retomando com os trabalhos, logo novas postagens estarão invadindo nosso blog trazendo mutas novidades, aguardem!!