terça-feira, 12 de agosto de 2008

A VITROLA TOMOU O LUGAR DO BERIMBAU. E NÃO HÁ MAIS VALENTIA, SÓ EXIBIÇÃO.


Centro de Cultura Física Regional, Pelourinho. Ou melhor: a academia do mestre Bimba. Quem passa pela rua, de calçamento irregular – onde se comprimem casarões antigos habitados por prostitutas – não vê o grupo de homens que prepara para lutar. Ouve apenas o ritmo da música: “ai ai, aidê joga bonito que eu quero aprender ai ai, aidê como vai, como passa, vosmicê...
Se não fosse pela movimentação de carros, com gente bem vestida que vai para as filmagens da “Tenda dos milagres” – que Nélson Pereira dos santos dirigiu na “Galeria l3, bem próximo dali – a rua estreita estaria vivendo mais uma noite de rotina, Na academia, tudo parece normal”.
Mas se mestre Bimba estivesse vivo reclamaria: ele jamais consentiu, nem nunca imaginou que pouco mais de um ano após a sua morte o Centro de Cultura Física Regional se transformasse num depoimento vivo do distanciamento da capoeira das suas raízes. O coro, que engrossa ou se toma lento na medida em que a luta “esquenta” ou “esfria”, vem de uma radiola, na qual um disco do mestre Caiçara substitui o berimbau; e a luta perdeu aquela agressividade natural que ele sempre procurou manter, mesmo sabendo que perdia alunos que podiam e queriam pagar para aprender capoeira.
-Tocar berimbau e muito difícil. Na Bahia, tem pouca gente que sabe tocar direito. É tão difícil que muita gente não consegue sequer segurar alguns minutos o berimbau porque fica com os dedos doloridos, diz o mestre Vermelho – José Carlos Andrade Bitencourt, 39 anos, dos quais 22 dedicados à capoeira, funcionário da Petrobrás e atual dono da academia de Bimba.
Ele comprou o Centro em 72 por cinco mil cruzeiros quando Bimba, sem dinheiro e decepcionado com a pouca atenção dada à capoeira, resolveu ir para Goiânia, onde morreu sem concretizar seu plano de criar uma nova e famosa academia.
A simplicidade da explicação do mestre “Vermelho” está longe de esgotar o verdadeiro significado da mudança de hábitos na academia que foi a mais famosa do Brasil, rivalizando apenas com a do mestre Pastinha. E isso pode ser facilmente comprovado diante dos novos hábitos assimilados nos últimos dois anos pelos tradicionais da Bahia: o capoeirista deixou de jogar capoeira na rua; usa cartão de visita bem impresso; introduziu faixas idênticas às usadas nas lutas marciais japonesas para indicar o grau de conhecimento dos seus alunos; raramente luta em festas de largo; faz questão de fazer propaganda da sua condição de lutador; e o pior, mais do que o aperfeiçoamento, ele se preocupa com a organização dos chamados conjuntos folclóricos capazes de associar, a um só tempo, fama e dinheiro.
Para o etnólogo Waldeloir Rego, essa transformação radica é conseqüência do impacto do progresso verificado nas duas últimas décadas e que “a Bahia não estava preparada para receber”. Essa mudança de hábitos tem dois pontos distintos; a saída da capoeira dos largos e ruas da cidade para um recinto fechado, a academia, iniciada com Bimba em 1929, e a sua utilização como aração turística.
Com a academia de Bimba explica Waldeloir, os quadros da capoeira passaram por midificações profundas.
-A classe média e a burguesia passaram a se interessar, a princípio, pelas exibições apenas; depois, para aprenderem e se exibirem a título de prática de educação física. Assim, a capoeira, que era perseguida desde o Império, acabou sendo oficializada, e em 1937 Bimba obteve o registro de sua academia.
Posteriormente, o turismo transformou a capoeira em artigo de consumo, mercadoria de venda. Resultado:
A nova geração de capoeirista – diz Waldeloir Rego – sofreu reflexo de todas essas transformações, que começaram em 1954, quando o turismo foi oficialmente implantado na Bahia com a criação de um departamento especifico ligado ao gabinete do prefeito.E a maioria dos capoeirista novos passou a aprender só o necessário para tornar um conjunto; o resto eles aprendem durante o trabalho.
É por causa da falta de renovação dos mestres que há uma tendência generalizada à crença de que a capoeira se afasta cada vez mais das suas raízes. Há até projeto de transformá-la em esporte nacional, com golpes e nomenclatura padronizados.
-Quase todo país tem seja luta nacional, mas ela nem sempre obedece a padrões fixos, como os jogos de futebol ou vôlei. E é justamente isso que é necessário à capoeira, a liberdade. A riqueza da capoeira está na variação de estilos; a luta é como uma caixa de surpresa não permite padrões rígidos.
“Vermelho”, chefe da introdução de métodos modernos no ensino da capoeira, acredita que só assim a luta poderá sobreviver.
-Na minha academia, que é famosa e está na terra da capoeira, só tenho 43 alunos já houve mais de 100 nos tempos de Bimba, dos quais só 23 freqüentam os cursos. O numero de alunos nas academias de capoeira declinou em função da grande propaganda em torno da lutas de origem oriental, e da falta de divulgação. Nem o endereço das academias os jornais publicam.
A necessidade de divulgação contribuiu para que o capoeirista, antes um homem que procurava esconder a sua condição de lutador, passasse a fazer propaganda própria, com a dupla finalidade de ganhar prestígio e promover sua escola.
-Para garantir os alunos - continua “Vermelho” - também tive de fazer uma outra mudança: diminuir a agressividade e a dureza dos treinos e me aproximar mais do pessoal. Não há como manter aquela distância que o Bimba mantinha e manteve até o se último dia aqui com a gente. Ele era o mestre e tinha de ser respeitado e tratado como tal. Agora, não da mais agente tem que ser como um professor qualquer.
Cercado pelas transformações sociais, o capoeirista está cada vez mais distante da figura do marginal, do vadio e sem profissão definida. Dos capoeiristas famosos, o único na Bahia que ainda faz questão de se manter o mais próximo possível das raízes é “Caiçara”, 52 anos, aluno do famoso mestre Aberê, dono de um conjunto folclórico, ator de dois discos da capoeira ele é também o único que costuma levar seus alunos para a capoeira de rua. Os outros mestres apenas aparecem nas rodas para dar o ar de sua graça, comenta, irônico, Waldeloir Rego.
Por tudo isso, “Vermelho” não vê nenhum problema e até acha muito boa substituir o berimbau pela radiola.
-O mestre cobrava 15,00 cruzeiros a mais para ensinar a tocar, por isso, ninguém se interessava muito em aprender a tocar berimbau. O importante era saber lutar.
O berimbau tema de músicas populares famosas como “Berimbau”, de baden Powel e Vinícius ("...berimbau me confirmou /vai ter briga de amor /tristeza camará") e "O assunto é berimbau" de Jackson do pandeiro e Antônio Barros, é como muito bem define uma canção popular, "um arame num pedaço de pau". O berimbau já foi de boca e hoje é da barriga - um arco com uma varinha e uma moeda de cobre. Atualmente, o berimbau é o principal instrumento musical da capoeira que antes, era jogada com o acompanhamento também do adufe (pandeiro pequeno de formato quadrado), do ganzá do reco-reco e do atabaque. Nas rodas de capoeira, dos instrumentos musicais antigos.
-O capoeirista mudou muito. E o espetacular passou a prepondera muito: outro dia soube até que se fez um batizado na capoeira. Isso nunca existiu - observa Waldeloir Rego.
Mestre Caiçara, que não joga mais capoeira é intransigente no prepara dos seus alunos, é mais incisivo.
-O que existe é muita falta de vergonha e de interesse de tocar berimbau agente aprende a tocar berimbau em seis meses ou menos. Basta querer.

Artigo gentilmente cedido por Mestre Peroti


Fonte: http://www.capoeiradobonfim.com.br/oglobo_11_04_76.htm

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