Atualmente, há um debate polêmico com contornos indefinidos no meio capoeirano que se remete ao campo em que essa manifestação deve se situar: no campo do esporte ou no da cultura? O fato é que, paulatinamente, vem acontecendo um processo de esportivização da capoeira no Brasil e sua intensificação deu-se a partir da década de 1970, por ocasião da vinculação dessa manifestação da cultura afro-brasileira à Confederação Brasileira de Pugilismo (CBP). Esse tratamento esportivo a ela dispensado foi, ao longo dos tempos, incrementado por competições, festivais, torneios etc, fomentados por algumas ações institucionais, como, por exemplo, os campeonatos organizados pela CBP, pela Confederação Brasileira de Capoeira (CBC)[1] e pelos Jogos Escolares Brasileiros (JEB’s)[2].
Entre os que debatem o fenômeno da esportivização no interior das práticas corporais em geral podemos encontrar vários autores que fundamentam suas críticas sob o argumento de que as manifestações da “cultura corporal de movimento” , ao serem esportivizadas, passam a ser tratadas de forma unidimensional e fragmentada, à medida que aspectos constitutivos relevantes inerentes às mesmas, como historicidade, determinantes sócio-políticos, subjetividade, exercício do lúdico, são subestimados em detrimentos de outros que caracterizam a lógica esportiva, como competição, racionalização, regramento, rendimento etc. No Brasil, podemos citar, entre outros autores: Bracht (1987, 1992 e 1997), Bruhns (1993), Castellani Filho (1988), Kunz (1991, 1994 e 1996) e Oliveira (1994).
A inclusão da capoeira no rol das práticas esportivas representa uma situação inusitada. Trata-se de uma manifestação oriunda das camadas subalternas, dos negros-escravos, que durante muitos anos foi condenada e proibida pelo poder constituído. Segundo Rego (1968), "o capoeira desde o seu aparecimento foi considerado um marginal, um delinqüente, em que a sociedade deveria vigiá-lo e as leis penais enquadrá-lo e puni-lo" (p. 291).
Ao adentrar o mundo esportivo, a capoeira passa a incorporar códigos e valores diferentes daqueles que a moldavam por ocasião de seu surgimento. Ela pode estar sendo recodificada, regrada e normatizada, negando, possivelmente, alguns dos seus elementos essenciais, como a o exercício do lúdico e espontaneidade.
A visão de que para termos bons capoeiristas teríamos que ter campeões soa como uma hipocrisia. Obviamente, não estamos aqui defendendo a total ausência de rendimento. Isso é impossível, mas sugerindo, como propõe Kunz (1996), um “rendimento como algo necessário mas não obrigatório” (p. 101). Nesse sentido, estamos de acordo com Valter Bracht quando destaca:
A idéia defendida e disseminada (e falsa) é a de que para motivar e termos uma população ativa esportiva e fisicamente precisamos de heróis esportivos que atuariam como exemplos, análoga à idéia de que para construirmos bons carros de passeio precisamos desenvolver carros de formula l.(BRACHT, 1997, p. 83)
A ambigüidade parece ser um componente intrínseco da capoeira, quando vista sob a lógica da cultura popular. Numa análise aligeirada ela pode denotar indeterminação, incerteza, dúvida, mas isso não é uma falha, defeito ou carência de um sentido, como destaca Chaui (1989). Trata-se de uma propriedade que contém ao mesmo tempo várias dimensões simultâneas.
É dentro dessa concepção multifacetada que as políticas públicas para a capoeira devem ser geridas. Ou seja, através de programas interministeriais e intersetoriais que envolvam as diversas interfaces da capoeira. As políticas públicas poderiam contribuir enormemente para o fomento desta que é um dos principais veículos de divulgação da cultura brasileira.

Mestre Falcão
Fonte: http://www.portalcapoeira.com/
Entre os que debatem o fenômeno da esportivização no interior das práticas corporais em geral podemos encontrar vários autores que fundamentam suas críticas sob o argumento de que as manifestações da “cultura corporal de movimento” , ao serem esportivizadas, passam a ser tratadas de forma unidimensional e fragmentada, à medida que aspectos constitutivos relevantes inerentes às mesmas, como historicidade, determinantes sócio-políticos, subjetividade, exercício do lúdico, são subestimados em detrimentos de outros que caracterizam a lógica esportiva, como competição, racionalização, regramento, rendimento etc. No Brasil, podemos citar, entre outros autores: Bracht (1987, 1992 e 1997), Bruhns (1993), Castellani Filho (1988), Kunz (1991, 1994 e 1996) e Oliveira (1994).
A inclusão da capoeira no rol das práticas esportivas representa uma situação inusitada. Trata-se de uma manifestação oriunda das camadas subalternas, dos negros-escravos, que durante muitos anos foi condenada e proibida pelo poder constituído. Segundo Rego (1968), "o capoeira desde o seu aparecimento foi considerado um marginal, um delinqüente, em que a sociedade deveria vigiá-lo e as leis penais enquadrá-lo e puni-lo" (p. 291).
Ao adentrar o mundo esportivo, a capoeira passa a incorporar códigos e valores diferentes daqueles que a moldavam por ocasião de seu surgimento. Ela pode estar sendo recodificada, regrada e normatizada, negando, possivelmente, alguns dos seus elementos essenciais, como a o exercício do lúdico e espontaneidade.
A visão de que para termos bons capoeiristas teríamos que ter campeões soa como uma hipocrisia. Obviamente, não estamos aqui defendendo a total ausência de rendimento. Isso é impossível, mas sugerindo, como propõe Kunz (1996), um “rendimento como algo necessário mas não obrigatório” (p. 101). Nesse sentido, estamos de acordo com Valter Bracht quando destaca:
A idéia defendida e disseminada (e falsa) é a de que para motivar e termos uma população ativa esportiva e fisicamente precisamos de heróis esportivos que atuariam como exemplos, análoga à idéia de que para construirmos bons carros de passeio precisamos desenvolver carros de formula l.(BRACHT, 1997, p. 83)
A ambigüidade parece ser um componente intrínseco da capoeira, quando vista sob a lógica da cultura popular. Numa análise aligeirada ela pode denotar indeterminação, incerteza, dúvida, mas isso não é uma falha, defeito ou carência de um sentido, como destaca Chaui (1989). Trata-se de uma propriedade que contém ao mesmo tempo várias dimensões simultâneas.
É dentro dessa concepção multifacetada que as políticas públicas para a capoeira devem ser geridas. Ou seja, através de programas interministeriais e intersetoriais que envolvam as diversas interfaces da capoeira. As políticas públicas poderiam contribuir enormemente para o fomento desta que é um dos principais veículos de divulgação da cultura brasileira.

Mestre Falcão
Fonte: http://www.portalcapoeira.com/
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